Há livros que a gente lê para descobrir o que aconteceu. E há aqueles em que, em algum momento, percebemos que já não estamos apenas procurando uma resposta: estamos desconfiando de todo mundo, voltando páginas, criando teorias e prometendo que aquele será o último capítulo antes de dormir.
É aí que mora boa parte do prazer de um grande thriller.
Em agosto de 2026, o The New York Times Book Review resolveu enfrentar uma tarefa bastante ingrata: escolher os 50 melhores thrillers publicados no século XXI.
Para chegar ao resultado, o jornal ouviu 291 pessoas ligadas ao universo dos livros, entre autores de ficção policial e de suspense, editores, bibliotecários, livreiros, críticos, podcasters e Bookstagrammers. Cada participante pôde indicar até dez títulos publicados em inglês nos Estados Unidos a partir de 1º de janeiro de 2000. A própria definição de “thriller” ficou aberta aos votantes, o que ajuda a explicar a diversidade da seleção.
O resultado mistura suspense psicológico, investigação policial, espionagem, crime, noir, dramas familiares e até obras que transitam pelas fronteiras da ficção científica e da literatura contemporânea.
E a lista tem uma campeã difícil de contestar: Garota exemplar, de Gillian Flynn.
A lista completa
Mantive abaixo a ordem oficial do ranking. Quando existe uma edição brasileira conhecida, adotei o título publicado em português; nos demais casos, preservei o título original para não criar traduções que não correspondam necessariamente a uma edição nacional.
- 01Garota exemplarGillian Flynn
- 02Sobre meninos e lobos (Mystic River)Dennis Lehane
- 03No bosque da memóriaTana French
- 04Os homens que não amavam as mulheresStieg Larsson
- 05Onde os velhos não têm vezCormac McCarthy
- 06Minha irmã, a serial killerOyinkan Braithwaite
- 07Ecos da florestaLiz Moore
- 08Lágrimas de açoS. A. Cosby
- 09Slow HorsesMick Herron
- 10Bluebird, BluebirdAttica Locke
- 11Asfalto malditoS. A. Cosby
- 12A garota no tremPaula Hawkins
- 13Case HistoriesKate Atkinson
- 14Precisamos falar sobre o KevinLionel Shriver
- 15Dare MeMegan Abbott
- 16O poder e a leiMichael Connelly
- 17Ilha do medoDennis Lehane
- 18Novembro de 63Stephen King
- 19Objetos cortantesGillian Flynn
- 20Porto seguro (Broken Harbour)Tana French
- 21QuartoEmma Donoghue
- 22O jardineiro fielJohn le Carré
- 23O pintassilgoDonna Tartt
- 24A secaJane Harper
- 25Ossos do invernoDaniel Woodrell
- 26O Código Da VinciDan Brown
- 27Pequenas grandes mentirasLiane Moriarty
- 28Canção de ninarLeïla Slimani
- 29A tramaJean Hanff Korelitz
- 30O simpatizanteViet Thanh Nguyen
- 31Em defesa de JacobWilliam Landay
- 32Anatomia de uma execuçãoDanya Kukafka
- 33The Wych ElmTana French
- 34The LikenessTana French
- 35Todos os pecadores sangramS. A. Cosby
- 36A paciente silenciosaAlex Michaelides
- 37Your House Will PaySteph Cha
- 38Eu sou o peregrinoTerry Hayes
- 39Na ponta dos dedosSarah Waters
- 40Matéria escuraBlake Crouch
- 41Não conte a ninguémHarlan Coben
- 42VocêCaroline Kepnes
- 43Lush LifeRichard Price
- 44Jar of HeartsJennifer Hillier
- 45Gótico mexicanoSilvia Moreno-Garcia
- 46Antes de dormirS. J. Watson
- 47O impulsoAshley Audrain
- 48Todas as cores da escuridãoChris Whitaker
- 49Magpie MurdersAnthony Horowitz
- 50Nada disso é verdadeLisa Jewell
Alguns livros que merecem uma conversa à parte
1º — Garota exemplar, Gillian Flynn
Colocar Garota exemplar no primeiro lugar diz bastante sobre o que aconteceu com o thriller nas últimas décadas.
Amy Dunne desaparece justamente no quinto aniversário de casamento. O marido, Nick, rapidamente passa de homem preocupado a suspeito perfeito. A partir daí, Gillian Flynn transforma aquilo que poderia ser apenas uma investigação sobre um desaparecimento em um jogo muito mais perverso sobre casamento, identidade, manipulação e sobre as versões que construímos de nós mesmos para sermos amados.
O grande mérito do livro não está apenas em sua famosa reviravolta. Está na sensação de que, a cada nova informação, precisamos reorganizar tudo aquilo em que acreditávamos algumas páginas antes.
O próprio New York Times destaca a capacidade de Flynn de mudar constantemente a perspectiva do leitor e construir tensão até a revelação final. Se alguém me perguntasse por onde começar nesta lista, este seria um candidato óbvio.
2º — Sobre meninos e lobos, Dennis Lehane
Talvez seja justamente aqui que a lista deixe claro que “thriller” pode significar muito mais do que uma sequência de reviravoltas.
Dennis Lehane parte da história de três amigos de infância marcados por um acontecimento traumático. Décadas depois, o assassinato da filha adolescente de um deles volta a unir suas vidas.
Há crime e investigação, claro. Mas Sobre meninos e lobos fala principalmente sobre culpa, trauma, amizade, vingança e sobre acontecimentos do passado que nunca ficam realmente no passado. O New York Times descreve justamente essa repercussão do trauma ao longo de décadas como um dos elementos centrais do romance.
É daqueles livros em que descobrir o culpado importa. Mas compreender o que aconteceu com aquelas pessoas importa ainda mais.
14º — Precisamos falar sobre o Kevin, Lionel Shriver
Este é um dos títulos mais desconfortáveis da lista.
Depois que Kevin, aos 15 anos, comete um massacre, acompanhamos a história principalmente através de sua mãe, Eva. E o livro coloca o leitor diante de perguntas para as quais não oferece respostas confortáveis: existe algo que uma mãe deveria ter percebido? Até onde vai a responsabilidade dos pais? O amor materno é necessariamente instintivo? O que fazemos com a culpa quando sequer sabemos se ela deveria existir?
A Editora Intrínseca destaca justamente essa investigação das relações entre pais e filhos e da culpa vivida pela mãe após o crime.
Não é o thriller que eu indicaria para quem procura apenas entretenimento. É um livro para quem aceita terminar uma leitura um pouco diferente de quando começou.
19º — Objetos cortantes, Gillian Flynn
Se Garota exemplar tornou Gillian Flynn um fenômeno mundial, Objetos cortantes mostra que a atmosfera perturbadora já estava presente desde seu primeiro romance.
Camille Preaker é uma jornalista que retorna à pequena cidade onde cresceu para investigar o assassinato de uma menina e o desaparecimento de outra. O problema é que voltar para casa significa reencontrar também a própria mãe, as lembranças da irmã morta e uma história familiar profundamente adoecida.
É sombrio, incômodo e menos interessado em personagens simpáticos do que em personagens feridos. Quem conheceu Flynn apenas por Garota exemplar provavelmente vai entender aqui por que ela conseguiu colocar dois livros entre os vinte primeiros.
27º — Pequenas grandes mentiras, Liane Moriarty
Talvez algumas pessoas estranhem encontrá-lo em uma lista de thrillers. Eu gosto justamente disso.
Porque Pequenas grandes mentiras começa em um território aparentemente cotidiano: escola, mães, casamentos, filhos, amizades, ex-maridos, aparências sociais. Sabemos que alguma coisa grave aconteceu, mas Moriarty demora a nos contar exatamente o quê. Enquanto isso, vai desmontando pouco a pouco a fachada de normalidade de seus personagens.
É um suspense construído menos pela figura de um assassino escondido no escuro e mais pelos segredos escondidos em casas aparentemente perfeitas. A adaptação para televisão transformou a história em Big Little Lies, mas o livro continua valendo a leitura por si só.
36º — A paciente silenciosa, Alex Michaelides
A premissa é irresistível.
Alicia Berenson é acusada de matar o marido e, depois do crime, simplesmente para de falar. Theo Faber, psicoterapeuta fascinado pelo caso, acredita que conseguirá descobrir o motivo do silêncio.
É exatamente o tipo de livro que transforma o leitor em investigador. Você lê procurando pistas. Desconfia. Volta algumas páginas. Formula uma teoria. Descarta. Formula outra.
Não é por acaso que se tornou um dos thrillers psicológicos mais populares dos últimos anos. E é também um bom exemplo de uma característica recorrente nesta seleção: narradores e perspectivas nos quais confiar pode ser um grande erro.
40º — Matéria escura, Blake Crouch
Aqui a lista muda completamente de território.
Jason Dessen é sequestrado e acorda em uma realidade na qual sua vida tomou um caminho completamente diferente. A partir dessa premissa, Blake Crouch mistura thriller e ficção científica para falar de universos possíveis, escolhas, identidade, família e da pergunta que provavelmente todos já fizemos alguma vez: e se eu tivesse escolhido diferente?
É uma ótima indicação para quem diz não gostar de thriller policial, mas gosta de histórias que começam aceleradas e simplesmente não permitem abandonar o livro.
50º — Nada disso é verdade, Lisa Jewell
E o quinquagésimo lugar não deve ser confundido com um livro menor.
Uma podcaster conhece por acaso uma mulher que faz aniversário no mesmo dia que ela. O encontro aparentemente banal começa a se transformar em material para um podcast e, aos poucos, em alguma coisa muito mais perturbadora.
A história brinca com versões, gravações, narrativas e com uma pergunta essencial para qualquer bom thriller psicológico: quem está contando a verdade?
É um belo jeito de fechar uma lista que começa com Garota exemplar: nos dois extremos do ranking encontramos histórias sobre mulheres, versões conflitantes da realidade e a enorme facilidade com que podemos acreditar em uma narrativa bem contada.
Uma lista para concordar — e também para discutir
O mais interessante de rankings literários não é descobrir qual livro “venceu”.
É olhar para uma lista como esta e perceber quantas formas diferentes existem de criar suspense. Há Gillian Flynn ao lado de Cormac McCarthy. Dan Brown ao lado de Donna Tartt. Stephen King, John le Carré, Tana French, Liane Moriarty, Blake Crouch, Harlan Coben e tantos outros autores que dificilmente ocupariam a mesma prateleira se usássemos uma definição muito estreita do gênero.
Aliás, Tana French aparece quatro vezes, enquanto S. A. Cosby surge três vezes; Gillian Flynn e Dennis Lehane têm dois títulos cada.
Também é inevitável olhar para as posições e discordar de algumas delas. Faz parte da graça. Porque nenhuma lista consegue decidir quais serão os nossos livros inesquecíveis. Ela pode, no máximo, nos apresentar os próximos candidatos.
E essa acabou de acrescentar alguns títulos à minha estante.
Agora quero fazer a lista da Biblioteca da Mari: quantos desses 50 você já leu? Qual seria o seu primeiro lugar? E qual livro ficou de fora e deveria, obrigatoriamente, estar aqui?
Fontes: seleção original do The New York Times e matéria da Editora Intrínseca.